Não deu match!
Escoltado por um silêncio reconfortante, percorri o corredor do fórum da Capital da Comarca do Rio de Janeiro até um certo cartório.
Mal entrei no recinto e deparei-me com uma fita daquelas que protegem transeuntes nas calçadas, ou que impedem de se adentrar a cena de um crime. Não sei se a faixa era produto de um novo protocolo de distanciamento, em virtude da pandemia, ou se se tratava de uma providência provisória.
Depois da tal da faixa amarela – na verdade ela tinha a cor preta também –, havia ainda uma barreira de vidro que se estendia do balcão ao teto, envidraçando o recinto por completo. Obedeci ao evidente sinal e mantive-me a uma certa distância; incômoda, confesso.
A parcial interdição do local fez-me automaticamente olhar para cima e examinar se corria o risco de um reboco despencar na minha cabeça, o que seria surreal considerando que tetos não costumam despencar em serventias do poder judiciário.
Do outro lado do vidro não havia aparentemente vida humana. Olhei para a câmera no alto à esquerda e fiz um aceno – como se o movimento provocasse um alarme a ponto de alguém saber que eu estava presente. Ninguém apareceu, mesmo o meu braço tendo balançado ridiculamente umas cinco vezes, na rotação de um limpador de para-brisa em dias de temporal.
Já estava desistindo quando ouvi uma porta abrir e fechar. Avistei uma mulher pegando uma bolsa e guardando um objeto cujo meu astigmatismo me impediu de identificar. Ela olhou sobre o ombro e expressou uma certa decepção por existir alguém querendo informação, a quinze minutos de fechar, numa sexta-feira.
— Boa tarde! — Falei o mais alto que pude, tentando compensar o abafado som causado pela máscara.
A serventuária – também usando uma máscara cuja estampa lembrou muito os vestidos floridos da minha avó materna – veio na minha direção com a velocidade de um bicho-preguiça e o ânimo de um coala depois do almoço. Com o olhar ela respondeu o meu cumprimento e eu entendi que era a deixa para eu dizer do que se tratava a minha “visita”.
— Preciso despachar com a juíza. — Fui o mais objetivo possível.
Apertando os olhos pequenos, a serventuária franziu a testa em franco sinal de que não tinha ouvido o que eu havia dito.
— O senhor pode repetir, doutor?
Sacudindo uma folha com os dados de um processo eu repeti a frase, quase soletrando palavra por palavra, como se fosse ajudar.
Parecendo ainda não entender, a serventuária repetiu a expressão, acrescentando aquele gesto habitual quando se quer dizer por mímica que não se ouviu – dedo indicador apontando para o ouvido.
Com uma certa agonia e quase invadindo o espaço delimitado pela faixa, repeti a frase, anda mais alto, fazendo estufar a minha máscara.
Finalmente a mulher de rosto florido entendeu e prontamente respondeu:
— A juíza só está despachando pelo Tinder!
A minha expressão foi tomada de um espanto evidente, que se ampliou quando a serventuária ao imaginar que eu continuava sem entender, repetiu: “pelo Tinder!”.
Fiquei sem reação. Na verdade, ficamos ambos com o cenho franzido, olhando um para o outro, alguns minutos.
Aprumei o corpo e avancei um pouco mais sobre a faixa. Abaixei cuidadosamente a máscara e indaguei: — TINDER?!
O misto de pergunta com exclamação a fez arregalar os olhos como se uma assombração estivesse em sua frente.
— O que é isso, doutor! Team…Team…Team… um aplicativo da Microsoft — disse a serventuária em tom reprovador. — E como ela ia despachar pelo Tinder? Cada ideia…